| Para quem não acredita nos avanços dos serviços públicos, está em pauta a implementação de indicadores sociais de saúde para a rede pública. Conforme palavras do ministro Padilha: "SUS está maduro para assumir indicadores sociais de saúde". Não obstante o movimento recente de indicadores de saúde para o atendimento público, o grande desafio é o de estender atendimento amplo e de qualidade. Tratando-se de um país de dimensões continentais este é um desafio equivalente ao de vários países juntos - entendendo-se a extensão territorial- onde cada qual conta com sua própria administração de recursos e finanças. Sendo assim, parto da visão de que não alcançaremos êxito sem passar por uma profunda descentralização. Temo ainda pelos indicadores que vão aferir tempo médio de consulta, 'ou número de atendimentos tão somente, passando ao largo de métricas voltadas à qualidade e mais do que isso, da percepção de qualidade da população.
Recentemente foram veiculadas matérias identificando a falta de pediatras na rede pública, com exemplos de famílias que se deslocam quilômetros para passar em consulta. Ora, se este atendimento básico não está ao alcance da população, como podemos falar em epidemiologia ou campanhas públicas de saúde? Se ainda falta estrutura, para a próxima geração de brasileiros, na outra ponta da cadeia a população envelhece e da mesma forma teremos carência de geriatras. Que dirá das especialidades: neurologistas, cardiologistas, endócrinos... Ainda com relação aos atendimentos não podemos imaginar o atendimento público como um sistema de produção, convertendo nossa mentalidade em visualizar mais o indicador do que a boa medicina praticada na ponta, no consultório. Por trás de toda essa discussão está o aspecto de performance, ou seja, a utilização inteligente dos recursos disponíveis, entregando a proposta governamental de atendimento ao cidadão como uma obrigação do Estado.
Daí minha visão e ênfase na descentralização dos recursos. A mídia ainda enfatiza a enormidade de desvio de recursos do sistema público. Sem dúvida nosso sistema favorece esta prática à medida que concentramos os recursos da União, gerando um enorme caixa fruto de arrecadação nacional - a concentração de bilhões favorece o desvio de milhões, o volume de milhões favorece o desvio de milhares e assim sucessivamente... Essa prática de segmentação dos recursos toma o volume menor e com isso o favorecimento ao controle. Pergunte ao trabalhador que sobrevive com um salário mínimo e ele te dirá para onde vai cada centavo de suas despesas mensais. De tão óbvio parece infame! Os indicadores propostos, prioritariamente, certamente irão justificar o destino e o equilíbrio dos recursos entre toda a rede pública. Não, eles não devem ser o foco de atenção do sistema.
São meio e não fim. Enquanto isso, vamos agora nos ocupar em acompanhar esta iniciativa: implantação dos indicadores -não atentamos para os vários municípios que não tem um médico de plantão no posto de saúde, ou ainda aqueles em que o recurso hospitalar está a quase 4 horas de barco, 2 horas de carro ou meio dia a cavalo! Invariavelmente essa medida acaba por concentrar ainda mais nos grandes centros e fragilizar os redutos do País. Se por um lado vemos o avanço, o desafio é não nos perdermos em números quando tratamos de seres humanos - nesse ponto a saúde se difere de outras cadeias produtivas. Muitos de nós, médicos, aprendemos a ser empresários e 'como empresários vivemos a:necessidade diária de alcançar excelência, competência e ouvir o cliente em nossas empresas - tratando-se de saúde privada, a concorrência e a pressão por custo e qualidade nos obriga a repensarmos nossas práticas cotidianamente e acabamos por introduzir uma série de indicadores de desempenho das mais variadas áreas da empresa.
Com os indicadores vieram as metas - perseguidas por equipes. comprometidas e supervisionadas por um time de auditores que garantem o desempenhosem o comprometimento da qualidade. Essa iniciativa aproxima a saúde pública da privada, tomando-a possível de comparações efetivas:o benchmark! Para muitos, fator de decisão no momento da aquisição de produtos e serviços. Em breve, poderemos aferir competências, desempenho e qualidade. Se sair do papel, a introdução de indicadores pode sim trazer à tona os gargalos, deficiências, restrições do sistema para crescimento e melhorias, Entretanto, caberá aos auditores do sistema supervisionar esses aferidores para que não seja comprometida a qualidade. Sem perder o foco... Qualidade em saúde, é vida em sua essência!
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